Uma história triste

A minha musa tinha os cabelos pretos e encaracolados e os olhos doces como mais não pode haver. Era um pouco vaidosa dos seus seios belos, mas comigo não tinha sorte porque os não desejava, que as musas querem-se longe, à distância do olhar. A minha musa não tinha culpa alguma de o ser. Não fez pedido ou meteu cunha. Era só um mistério que me ligava à divindade e me fazia escrever.

Pedro Paixão in “amor portátil”, Livros Cotovia, 2000

Raul Brandão

Este tipo esgalgado e seco, já ruço, que dorme nas eiras ou sonha acordado pelos caminhos, sou eu. Sou eu que gesticulo e falo alto sozinho, envolto na nuvem que me envolve e impregna. Que força me guia e impele até à morte?”

(Raul Brandão)

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Fogos

Todos os anos as labaredas lambem o património nacional até não poderem mais. Todos os anos o problema passa para o ano seguinte. As autoridades que tratem do assunto, pensamos nós, no íntimo. E elas tratam. Todos os anos da mesma maneira.

Leituras

Numa releitura de “Os Buddenbrook” de Thomas Mann, Prémio Nobel da Literatura em 1929, sou levado a fazer comparações com “Os Maias” de Eça de Queiroz. Ambos os escritores viveram sensivelmente na mesma época (Thomas Mann era mais novo 30 anos) e escreveram sobre a realidade do seu tempo (séc. XIX) nos respectivos países. Numa comparação apriorística o nosso escritor consegue dar-nos um romance de época muito mais contido em número de páginas e com uma escrita muito mais galvanizante, em vários desenvolvimentos da realidade burguesa da época, muito mais realista na abordagem das relações amorosas, com alguma truculência adjectivante e algum humor à mistura. Thomas Mann é soturno e demasiado prolífico na descrição dos ambientes. Há páginas e páginas que dão sono. Eça de Queiroz apresenta uma escrita viva, Thomas Mann uma escrita densa, mas cansativa. Ambos são extraordinários romances, mas a minha apreciação e gosto pende claramente para “Os Maias” de Eça de Queiroz.

A culpa é da árvore

Culpa-simpson

Uma árvore centenária (um carvalho com 200 anos) caiu no Funchal, no sítio do Monte. Como havia lá uma cerimónia relativa à Senhora do Monte, o espaço estava cheio de gente. A árvore caiu e matou 13 pessoas, ferindo 49. Não sei em que estado mais ou menos grave se encontram.

Lê-se as notícias, as opiniões de técnicos e responsáveis autárquicos e outras entidades, e a conclusão primeira a que se chega é que estava tudo bem antes da árvore cair. Portanto, se a árvore caiu a culpa é dela. Quase tudo o que acontece de mau, em Portugal, é culpa do azar. Neste caso, será culpa da árvore que não devia ter-se despedido da vida sem anunciar o facto. Já o que aconteceu recentemente em Pedrógão, também parece que não é culpa de ninguém. Talvez do SIRESP, que não se comportou bem. Sucedeu. Ponto final.

É por isso que em Portugal se usa tanto a expressão “a culpa morreu solteira”. É que morre mesmo.