E assim lá vamos cantando e rindo

As obras públicas em Portugal concitam o riso, porque já ninguém se amargura, nem sequer com o dinheiro que lhe esmifram em impostos. Vem uma entidade e pavimenta o passeio; vem outra e asfalta a rua; de seguida vem outra e rompe o passeio para meter cabos, por exemplo, mas deixa as pedras soltas. A seguir vem outra e rompe o asfalto e outra que torna a romper o passeio para colocar um candeeiro de rua. Mas não se fica por aqui. Porque antes, outra entidade ajardinou o local, que uma das outras entidades vem revolver para executar qualquer outra obra. Não há planeamento nem de urbanizadores nem de câmaras. O português paga e não bufa. Há a bola, a Nossa Senhora de Fátima, as telenovelas, as manhãs dos canais de televisão. E assim lá vamos cantando e rindo.

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Fogos

Todos os anos as labaredas lambem o património nacional até não poderem mais. Todos os anos o problema passa para o ano seguinte. As autoridades que tratem do assunto, pensamos nós, no íntimo. E elas tratam. Todos os anos da mesma maneira.

A culpa é da árvore

Culpa-simpson

Uma árvore centenária (um carvalho com 200 anos) caiu no Funchal, no sítio do Monte. Como havia lá uma cerimónia relativa à Senhora do Monte, o espaço estava cheio de gente. A árvore caiu e matou 13 pessoas, ferindo 49. Não sei em que estado mais ou menos grave se encontram.

Lê-se as notícias, as opiniões de técnicos e responsáveis autárquicos e outras entidades, e a conclusão primeira a que se chega é que estava tudo bem antes da árvore cair. Portanto, se a árvore caiu a culpa é dela. Quase tudo o que acontece de mau, em Portugal, é culpa do azar. Neste caso, será culpa da árvore que não devia ter-se despedido da vida sem anunciar o facto. Já o que aconteceu recentemente em Pedrógão, também parece que não é culpa de ninguém. Talvez do SIRESP, que não se comportou bem. Sucedeu. Ponto final.

É por isso que em Portugal se usa tanto a expressão “a culpa morreu solteira”. É que morre mesmo.

Jornais, para que vos quero?

Olho para os jornais e não sei qual deles ler. Seja em papel ou formato digital. Parecem todos farinha do mesmo saco. E de saco de farinha ardida ou com gorgulho. Eu sei que não vivemos um tempo de grandes inteligências, de personalidades que nos toquem a alma. As notícias são todas retiradas do mesmo almofariz em que foram trituradas. Os jornaleiros não sabem escrever, embora tenham cursos superiores de comunicação social. Aprenderam o b-a-ba teclando em telemóveis. O problema é que antigamente (ai esta palavra de que os meninos não gostam) os jornais ainda serviam para embrulhar peixe, castanhas assadas e até para limpar o cu. Mas hoje em dia há papel mais adequado para essas funções.

Ser diferente é beber água de outra fonte

O que me custa mais nas viagens que faço é ver e reconhecer que, para além do património secular, dos cheiros, dos climas, que fazem a diferença dos lugares que cruzo, tudo o resto, que é actual, não passa de um copy and past de realidades importadas dos países ricos, das megacidades, das vedetices transmitidas pelos canais por cabo (ou fibra). Onde é que está a diferenciação criadora do ser humano? Somos todos iguais? Todos gordos, todos magros, todos a imitar o penteado do Cristiano Ronaldo (evoco-o por ser produto nacional, e o que é nacional é bom, segundo o slogan)? Tolice nossa. O mundo não é assim tão pequeno. Nós é que somos muitos, e a comunicação é urbi et orbi  repercutindo a voz do dono, os grupos de pressão instalados.

O vinho a refrescar no poço

Não há nada melhor que uma garrafa de vinho refrescada no poço a acompanhar uma boa refeição. Um cordel com uma ponta presa ao gargalo e a outra ponta atada a um ferro da nora, à boca do poço. Mas já não há noras puxadas por mulas e machos de olhos vendados, nem poços de água fresca. Só vinho… com sulfitos. E virá o tempo, meus amig@s, em que as sardinhas virão do deserto do Gobi, de uma qualquer aquicultura de areia.

Apanhar minhocas para as canas dos outros

Analisado à luz da longa duração (Braudel), Portugal está igual ao que sempre foi. De vez em quando acende-se uma luzinha. Como nos tempos que correm. Depois, apaga-se.

O nosso destino é apanhar minhocas para as canas dos outros.

António Garcia Barreto