A cidade dos lacraus

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Num desses dias, num quarto da rua Gomes Freire, um homem trocou a roupa civil pela de antigo oficial de artilharia, sem que a sua postura denunciasse receio ou ansiedade. Tudo estava preparado para resultar bem, embora houvesse sempre algum grau de imprevisibilidade e de insucesso no tipo de aventura em que se ia meter. Fumou um último cigarro Baunnilhas e deixou no cinzeiro o maço amarrotado. Era um sujeito magro, elegante, vestindo com garbo tanto a farda militar com a roupa civil. Os amigos comentavam que a sua presença era suficiente para fazer suspirar de amores mulheres casadoiras e mães de família desenganadas, que ainda sonhavam com príncipes encantados. Além de oficial superior do exército, fora lente de matemática, em Coimbra, e embaixador na Alemanha. O que este homem se preparava para realizar só ele e mais uns quantos amigos e correligionários conheciam em pormenor. Faltava ainda confirmar alguns apoios. Nada que o desanimasse.

António Garcia Barreto in “A Cidade dos Lacraus”
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À Sombra das Acácias Vermelhas

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À Sombra das Acácias Vermelhas, na WOOK

Ruminando uma cigarrilha de palmo, o tenente passou por mim a imitar uma locomotiva a vapor largando fumarada cinzenta pela boca e pelas narinas. E logo me perguntou a fazer-se de novas, se eu estava ao corrente do sucedido com um soldado que abandonara a guarita de sentinela para ir cobrir uma negra no posto médico. A sorrir, comentei:

— Ó meu tenente, essa de cobrir é boa, mas cheira a bode!

O soldado devia estar com uma grande comichão nos ovários e aproveitou o intervalo da noite e a passagem acidental da mulher para desalfandegar a tesão comprimida nos testículos como a azeitona no lagar. O tenente não achou graça ao meu comentário jocoso e sibilinamente quis saber se não tinha sido eu quem estivera de oficial de dia.

— Sim, fui eu! — confessei. — Mas não dei por nada. Estava com certeza na zona das casernas inteirando-me do bom andamento do sono das praças.

Continuou a não achar graça.

Um sorriso para a eternidade

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“Das aventuras amorosas do avô Aurélio, algumas deixaram rasto. Uma das mulheres que ele amou chamava-se Li Yong. Dizia-se que era bela como uma flor de lótus e delicada como uma porcelana chinesa. Aurélio seduzira-a falando-lhe do seu passado em Macau, onde não era provável que tivesse estado, num dia em que apareceu num baile mascarado de chinês vendedor de gravatas, afirmando-lhe ser descendente da antiga dinastia Ching. Ela olhou-o, desvanecida e feliz, mesmo sendo evidente a impossibilidade de Aurélio ser chinês da Manchúria, e um descendente dos Ching vender gravatas na pátria de D. Afonso Henriques. Mas Li perdoou-lhe tudo, admirada com a sua audácia e a sua disponibilidade para a amar como se fosse uma mimosa folha de chá. Viveram alguns anos uma espécie de folhetim sentimental num lugarejo perdido na serra da Lousã, até ao dia em que Li acabou por sucumbir de desgosto quando percebeu que na boca de Aurélio qualquer pequena mentira se transformava numa verdade a que todos aderiam, o que era perigoso. Essa revelação e mais um rol de dívidas disseminadas pela região e pelos amigos mais próximos concorreram para o infeliz desenlace. A outra mulher assumida pelo avô era mais nova do que ele vinte anos. Conheceu-a quando era um jovem com meio século de existência. Tinha o nome improvável de Camélia, mas à parte esse pormenor onomástico, todo o seu corpo se agitava quando ele a olhava com o seu sorriso encantador. Camélia levava os dias a ler fotonovelas e romances cor-de-rosa, a deitar cartas de tarô e a observar a chegada do vizinho do lado, que era viúvo, vendedor de auto- móveis e dançarino de tangos. Moravam numa pequena vivenda em Benfica, por detrás da igreja, com um jardim de plantas murchas e um alpendre coberto por buganvílias. Foi a minha mãe que descobriu tudo, informada por uma amiga. Camélia era discreta, e se gemia amores proibidos, ninguém lhe escutava qualquer sussurro. Havia mesmo quem sublinhasse a sua existência comedida, as palavras sensatas e a qualidade dos seus pastéis de bacalhau. Tudo parecia decorrer dentro da normalidade até ao dia em que Aurélio, após prolongada ausência, chegou a casa e encontrou Camélia deitada na cama com o dançarino de tangos, fazendo juras de amor eterno. O viúvo fugiu pela janela com a roupa na mão, à semelhança do que vira fazer no cinema. O meu avô arrumou a mala e desapareceu de cena, nunca mais sendo visto por ali.”

António Garcia Barreto

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