A cidade dos lacraus

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Num desses dias, num quarto da rua Gomes Freire, um homem trocou a roupa civil pela de antigo oficial de artilharia, sem que a sua postura denunciasse receio ou ansiedade. Tudo estava preparado para resultar bem, embora houvesse sempre algum grau de imprevisibilidade e de insucesso no tipo de aventura em que se ia meter. Fumou um último cigarro Baunnilhas e deixou no cinzeiro o maço amarrotado. Era um sujeito magro, elegante, vestindo com garbo tanto a farda militar com a roupa civil. Os amigos comentavam que a sua presença era suficiente para fazer suspirar de amores mulheres casadoiras e mães de família desenganadas, que ainda sonhavam com príncipes encantados. Além de oficial superior do exército, fora lente de matemática, em Coimbra, e embaixador na Alemanha. O que este homem se preparava para realizar só ele e mais uns quantos amigos e correligionários conheciam em pormenor. Faltava ainda confirmar alguns apoios. Nada que o desanimasse.

António Garcia Barreto in “A Cidade dos Lacraus”

Cartas de amor

Camilo Kappa era escritor. Um escritor de cartas de amor. Sentava-se todas as tardes debaixo de um plátano centenário, no largo do mercado da aldeia, com uma escrivaninha improvisada e uma grande placidez no olhar. Na sua frente o material de escrita: uma caneta, um bloco de folhas de papel e alguns modelos de carta para auxiliar a escolha do cliente.

(…)

As cartas de amor que Camilo Kappa escrevia tinham o dom, ou a arte, de unir os namorados para o resto da vida, felizes, como nos contos de fadas. Talvez por isso as mães recomendassem às filhas apaixonadas que, pelo menos uma vez, passassem pela banca de Camilo e lhe pedissem para escrever uma carta aos namorados.

(…)

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve

 

Poema II

Qual a felicidade dos pássaros

que não cantam?

dos homens que não sonham?

das pedras que não rolam?

Há quem julgue ser feliz

a tirar a caca do nariz

a viajar à volta do dedo grande do pé

ou a soprar sonhos em balões de espuma

Mas se não cantar

não sonhar

não rolar

a vida vai o derrotar

António Garcia Barreto in “Lúcido Rumor”