Desgostei

Depois de ler “Um Copo de Cólera” de Raduan Nassar, fiquei com a sensação que o idioma do Brasil é uma língua de faz-de-conta, que em certos autores se afasta cada vez mais do português. Também não consegui gostar do espavento literário do Prémio Camões, 2016. Não me vejo a ler outras obras do autor, que, aliás, são escassas.

*** estrelinhas e não digas que vais daqui.

Roc, um pássaro imaginário

Nas Viagens de Marco Polo lê-se (segundo Jorge Luis Borges, em “O Livro dos Seres Imaginários”: “Os habitantes da ilha de Madagáscar referem que em determinada estação do ano chega das regiões austrais uma espécie extraordinária de pássaro a que chamam Roc. A sua forma é parecida com a da águia, mas é incomparavelmente maior. O Roc é tão forte que pode levantar um elefante com as suas garras, voar com ele pelos ares e deixá-lo cair lá do alto para o devorar depois. Quem viu o Roc garante que as asas medem dezasseis passos de uma ponta à outra e que as penas têm oito passos de comprimento.”

Jorge Luis Borges in “O Livro dos Seres Imaginários”

À Sombra das Acácias Vermelhas

fullsizeoutput_65c

À Sombra das Acácias Vermelhas, na WOOK

Ruminando uma cigarrilha de palmo, o tenente passou por mim a imitar uma locomotiva a vapor largando fumarada cinzenta pela boca e pelas narinas. E logo me perguntou a fazer-se de novas, se eu estava ao corrente do sucedido com um soldado que abandonara a guarita de sentinela para ir cobrir uma negra no posto médico. A sorrir, comentei:

— Ó meu tenente, essa de cobrir é boa, mas cheira a bode!

O soldado devia estar com uma grande comichão nos ovários e aproveitou o intervalo da noite e a passagem acidental da mulher para desalfandegar a tesão comprimida nos testículos como a azeitona no lagar. O tenente não achou graça ao meu comentário jocoso e sibilinamente quis saber se não tinha sido eu quem estivera de oficial de dia.

— Sim, fui eu! — confessei. — Mas não dei por nada. Estava com certeza na zona das casernas inteirando-me do bom andamento do sono das praças.

Continuou a não achar graça.

Ontem como hoje?

Na minha família, a literatura não tinha qualquer existência (…) Liam-se livros, sem dúvida, mas por desfastio, e sem fixar sequer o nome dos autores. (…) Ser-se escritor, ou qualquer coisa semelhante e de ordem artística, era ainda pior que ser político. Um escritor, um pintor, um ator, não tinha qualquer lugar na escala social. E poeta era sinónimo familiar de distraído, de pobre de espírito, de idiota chapado (…).

Fala de personagem do livro “Sinais de Fogo”, de Jorge de Sena, Livros do Brasil, 2017