Uma história triste

A minha musa tinha os cabelos pretos e encaracolados e os olhos doces como mais não pode haver. Era um pouco vaidosa dos seus seios belos, mas comigo não tinha sorte porque os não desejava, que as musas querem-se longe, à distância do olhar. A minha musa não tinha culpa alguma de o ser. Não fez pedido ou meteu cunha. Era só um mistério que me ligava à divindade e me fazia escrever.

Pedro Paixão in “amor portátil”, Livros Cotovia, 2000

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Leituras

Numa releitura de “Os Buddenbrook” de Thomas Mann, Prémio Nobel da Literatura em 1929, sou levado a fazer comparações com “Os Maias” de Eça de Queiroz. Ambos os escritores viveram sensivelmente na mesma época (Thomas Mann era mais novo 30 anos) e escreveram sobre a realidade do seu tempo (séc. XIX) nos respectivos países. Numa comparação apriorística o nosso escritor consegue dar-nos um romance de época muito mais contido em número de páginas e com uma escrita muito mais galvanizante, em vários desenvolvimentos da realidade burguesa da época, muito mais realista na abordagem das relações amorosas, com alguma truculência adjectivante e algum humor à mistura. Thomas Mann é soturno e demasiado prolífico na descrição dos ambientes. Há páginas e páginas que dão sono. Eça de Queiroz apresenta uma escrita viva, Thomas Mann uma escrita densa, mas cansativa. Ambos são extraordinários romances, mas a minha apreciação e gosto pende claramente para “Os Maias” de Eça de Queiroz.

Desgostei

Depois de ler “Um Copo de Cólera” de Raduan Nassar, fiquei com a sensação que o idioma do Brasil é uma língua de faz-de-conta, que em certos autores se afasta cada vez mais do português. Também não consegui gostar do espavento literário do Prémio Camões, 2016. Não me vejo a ler outras obras do autor, que, aliás, são escassas.

*** estrelinhas e não digas que vais daqui.

Roc, um pássaro imaginário

Nas Viagens de Marco Polo lê-se (segundo Jorge Luis Borges, em “O Livro dos Seres Imaginários”: “Os habitantes da ilha de Madagáscar referem que em determinada estação do ano chega das regiões austrais uma espécie extraordinária de pássaro a que chamam Roc. A sua forma é parecida com a da águia, mas é incomparavelmente maior. O Roc é tão forte que pode levantar um elefante com as suas garras, voar com ele pelos ares e deixá-lo cair lá do alto para o devorar depois. Quem viu o Roc garante que as asas medem dezasseis passos de uma ponta à outra e que as penas têm oito passos de comprimento.”

Jorge Luis Borges in “O Livro dos Seres Imaginários”

À Sombra das Acácias Vermelhas

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À Sombra das Acácias Vermelhas, na WOOK

Ruminando uma cigarrilha de palmo, o tenente passou por mim a imitar uma locomotiva a vapor largando fumarada cinzenta pela boca e pelas narinas. E logo me perguntou a fazer-se de novas, se eu estava ao corrente do sucedido com um soldado que abandonara a guarita de sentinela para ir cobrir uma negra no posto médico. A sorrir, comentei:

— Ó meu tenente, essa de cobrir é boa, mas cheira a bode!

O soldado devia estar com uma grande comichão nos ovários e aproveitou o intervalo da noite e a passagem acidental da mulher para desalfandegar a tesão comprimida nos testículos como a azeitona no lagar. O tenente não achou graça ao meu comentário jocoso e sibilinamente quis saber se não tinha sido eu quem estivera de oficial de dia.

— Sim, fui eu! — confessei. — Mas não dei por nada. Estava com certeza na zona das casernas inteirando-me do bom andamento do sono das praças.

Continuou a não achar graça.