Ricardo caiu no buraco de ozono

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O Major Cunha e Cunhas era, além de major, engenheiro, e, além de major e engenheiro, era também inventor e, além de major, engenheiro e inventor, era maluco, segundo diziam os vizinhos, para quem estas coisas de ser diferente eram muito complicadas.

No seu currículo de inventor constava, entre outras obras de génio, a invenção de uma Máquina para Armazenar Ideias Durante o Sono, uma Vassoura Computadorizada para Bruxas Modernas, um Escadote Virtual para Chegar à Lua, um Automóvel com Asas Escamoteáveis para Engarrafamentos de Trânsito, um Despertador para Não Despertar, além de um divertido Curso de Cambalhotas para Políticos Profissionais e um Manual para Ensinar Papagaios a Cantar Rock Futurista. (…)

Como se pode verificar pelo que atrás ficou dito, o Major Cunha e Cunhas era um inventor de elevados pergaminhos. Mas, como qualquer simples mortal, ambicionava chegar mais longe. Trabalhava com afinco num projeto ultra-secreto (embora toda a gente falasse nele) para construir um máquina com que reparar o buraco de ozono, com a qual pretendia candidatar-se ao Prémio Nobel das Invenções.

© António Garcia Barreto. Ilustrações de Mónica Cid.
(Livro esgotado à procura de editor)

40 anos de vida literária

Publiquei o primeiro livro em 1977. Uma pequena história para crianças, muito bem recebida pelas escolas e pelos leitores. A DGLB adquiriu, na altura, 14.600 exemplares para as bibliotecas escolares e existe uma transcrição em Braille. Chama-se o livrinho “Botão Procura Casa” e era (é) destinado às crianças nas primeiras idades de leitura. Completo, pois, em 2017, 40 anos de uma vida literária contínua, embora com altos e baixos, a que outros afazeres obrigaram. Fico feliz se, de alguma modo, contribuí para a felicidade de alguns leitores.

Aqui deixo a imagem desse primeiro livro publicado pela Plátano Editora (sendo editor o escritor e poeta António Torrado) e ilustrador Fred.

BotaoCasa

À Sombra das Acácias Vermelhas

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À Sombra das Acácias Vermelhas, na WOOK

Ruminando uma cigarrilha de palmo, o tenente passou por mim a imitar uma locomotiva a vapor largando fumarada cinzenta pela boca e pelas narinas. E logo me perguntou a fazer-se de novas, se eu estava ao corrente do sucedido com um soldado que abandonara a guarita de sentinela para ir cobrir uma negra no posto médico. A sorrir, comentei:

— Ó meu tenente, essa de cobrir é boa, mas cheira a bode!

O soldado devia estar com uma grande comichão nos ovários e aproveitou o intervalo da noite e a passagem acidental da mulher para desalfandegar a tesão comprimida nos testículos como a azeitona no lagar. O tenente não achou graça ao meu comentário jocoso e sibilinamente quis saber se não tinha sido eu quem estivera de oficial de dia.

— Sim, fui eu! — confessei. — Mas não dei por nada. Estava com certeza na zona das casernas inteirando-me do bom andamento do sono das praças.

Continuou a não achar graça.