António Reis. “Eu não voo, ando: quero que me oiçam”

Meio século depois, a Tinta-da-China recupera uma das obras de culto da poesia contemporânea portuguesa. “Poemas Quotidianos”, do poeta e cineasta António Reis, faz regressar ao nosso convívio uma voz que precisou de apenas cem breves poemas para falar a essa altura em que todos podem ouvi-la claramente, mas que se fixa em nós como um segredo. e Meio século depois, a Tinta-da-China recupera uma das obras de culto da poesia contemporânea portuguesa. “Poemas Quotidianos”, do poeta e cineasta António Reis, faz regressar ao nosso convívio uma voz que precisou de apenas cem breves poemas para falar a essa altura em que todos podem ouvi-la claramente, mas que se fixa em nós como um segredo.

Fonte: António Reis. “Eu não voo, ando: quero que me oiçam”

Texto de Diogo Vaz Pinto no ionline

Dia 7

No dia 7 / Morreu uma camarada que vai ficar insepulta / Que vai tornar o ar perfumado e morreu / Que vai dar sempre flor de coragem e está morta / Que era da família nossa e ninguém vai chorar / Que os camaradas sabiam importante mas ela não / E vai ficar insepulta porque é um grande cadáver / E não há terra suficiente para cavar essa sepultura.

É assim mesmo / Quando alguém cresce até ao tamanho do Povo / Fica por enterrar porque é muito grande. / O Herói não tem sepultura.

Mutimati Barnabé João, aliás João Pedro Grabato Dias, poeta, aliás António Quadros, pintor e escultor, in “Eu, o Povo”

 

Murmúrio

Antunes da Silva1

O feno que cresce

é onda de pão,

ou respira só

as cinzas do chão?

O Sol que invade

o monte florido

tem cara de santo

num vaso caído.

A planta que emerge

no lodo do rio

sacode as folhinhas

no rasto do frio.

Antunes da Silva, in “Rio Degebe”.

Poema II

Qual a felicidade dos pássaros

que não cantam?

dos homens que não sonham?

das pedras que não rolam?

Há quem julgue ser feliz

a tirar a caca do nariz

a viajar à volta do dedo grande do pé

ou a soprar sonhos em balões de espuma

Mas se não cantar

não sonhar

não rolar

a vida vai o derrotar

António Garcia Barreto in “Lúcido Rumor”